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Divulgados em 8 de setembro de 2026 pela OCDE e pelo Inep, os dados da maior edição do PISA já realizada mostram um Brasil que avançou em duas décadas, estagnou nos últimos anos e continua abaixo da média internacional. Entenda o que os números significam, e o que eles não conseguem explicar sozinhos.
Em uma mesma manhã de terça-feira, o Brasil recebeu duas notícias verdadeiras e, à primeira vista, contraditórias. A primeira: o país está entre as dez nações que mais avançaram em proficiência escolar desde 2006, segundo o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA). A segunda: mesmo depois desse avanço, o desempenho brasileiro em matemática, leitura e ciências segue abaixo da média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a entidade que coordena a avaliação.
As duas informações vieram do mesmo relatório, divulgado em 8 de setembro de 2026 pela OCDE e, no caso dos dados nacionais, pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Para pais e responsáveis que acompanham a educação dos filhos adolescentes, esse contraste é o ponto de partida mais honesto para entender o que o PISA 2025 realmente diz, e o que ele não diz, sobre a formação da próxima geração.
O PISA é uma avaliação internacional aplicada a estudantes de 15 anos, organizada pela OCDE a cada três anos desde 2000. O objetivo não é medir a memorização de conteúdos escolares, mas verificar se o adolescente consegue usar conhecimentos de leitura, matemática e ciências para interpretar informações, resolver problemas e lidar com situações do cotidiano.
A edição de 2025 foi a nona do programa e a maior já realizada: participaram mais de 760 mil estudantes de 91 países e economias, representando cerca de 33 milhões de jovens dessa faixa etária. No Brasil, a aplicação ficou a cargo do Inep, órgão vinculado ao Ministério da Educação. Participaram 30.140 estudantes de 1.053 escolas, representando aproximadamente 2,185 milhões de adolescentes de 15 anos. A maioria da amostra brasileira (72,4%) estava matriculada na rede estadual, e 84,7% cursavam a 1ª ou a 2ª série do ensino médio. As provas, totalmente aplicadas por computador, ocorreram entre abril e maio de 2025.
A cada ciclo, o PISA escolhe uma área para aprofundar, com mais itens de prova e uma estimativa estatística mais robusta. Em 2018, a prioridade foi leitura; em 2022, matemática; em 2025, coube a vez de ciências. Isso significa que os dados científicos desta edição são os mais detalhados do relatório, e explica por que boa parte das novidades apresentadas pela OCDE e pelo Inep se concentra nessa área.
Segundo a metodologia da avaliação, o domínio de ciências mede a capacidade do estudante de participar de discussões fundamentadas sobre ciência, sustentabilidade e tecnologia, e de usar conhecimento científico para embasar decisões e ações.
No ranking internacional, o desempenho segue concentrado em sistemas educacionais asiáticos. As jurisdições chinesas de Pequim, Xangai, Jiangsu e Zhejiang, avaliadas em conjunto, lideraram em ciências (597 pontos) e em matemática (612 pontos). Cingapura, que participa do PISA desde 2009 e mantém desempenho elevado em todas as edições, ficou em primeiro lugar em leitura (535 pontos) e alcançou 561 em ciências e 563 em matemática. Estônia, Japão, Coreia do Sul, Macau, Taipei Chinesa e Reino Unido também apareceram entre os melhores resultados.
Ao mesmo tempo, a OCDE registrou o desempenho médio mais baixo já observado desde que o programa existe nas três áreas principais. Segundo o relatório, a média dos países-membros caiu cerca de 14 pontos em leitura e 9 pontos em matemática em relação a 2022, enquanto em ciências o resultado permaneceu praticamente estável. A organização associa parte dessa queda a mudanças nos hábitos de leitura dos adolescentes, ao maior tempo de uso de telas e à redução do tempo dedicado à leitura por prazer, sem apontar uma causa única para o fenômeno.
O Brasil obteve 408 pontos em leitura, 377 em matemática e 409 em ciências no PISA 2025. As médias da OCDE nessas três áreas foram, respectivamente, 466, 469 e 486 pontos, o que mantém o país abaixo do grupo de nações mais desenvolvidas nas três disciplinas avaliadas.
Na comparação com o ciclo anterior, de 2022, quando o Brasil havia registrado 410 pontos em leitura, 379 em matemática e 403 em ciências, a variação foi pequena: queda de dois pontos em leitura e matemática, e alta de seis pontos em ciências. Segundo a nota técnica da OCDE sobre o Brasil, essas oscilações não são estatisticamente significativas, ou seja, dentro da margem de erro da avaliação, o desempenho do país permaneceu essencialmente estável entre uma edição e outra.
Em termos de posição relativa, considerando apenas a ordenação simples das médias entre os países com resultados publicados, o Brasil ficou em 52º lugar em leitura, 71º em matemática e 67º em ciências. Vale um cuidado de leitura aqui: o PISA não constrói um ranking geral combinando as três áreas, e diferenças pequenas entre países vizinhos na tabela podem não representar diferença estatisticamente relevante de desempenho.
O dado mais celebrado pelo Inep na divulgação foi outro: olhando para uma janela de vinte anos, entre 2006 e 2025, o Brasil está entre as dez nações que mais aumentaram sua proficiência nas três áreas do PISA, entre mais de 50 países comparados. O país ocupa a 7ª posição no ranking de evolução em leitura e matemática, e a 8ª em ciências.
Essa melhoria também aparece na redução da distância entre o Brasil e a média da OCDE. Em leitura, a diferença caiu de 102 pontos em 2006 para 58 pontos em 2025. Em matemática, foi de 131 para 92 pontos. Em ciências, de 113 para 77 pontos. São reduções reais, documentadas pelo próprio Inep, mas que convivem com um dado que pede cautela: parte da aproximação em matemática decorre da queda da média internacional nos últimos anos, e não apenas do avanço brasileiro, o que reforça a importância de olhar para os números absolutos do país, e não só para a distância em relação aos demais.
No recorte mais recente, que inclui o período da pandemia de covid-19, o resultado brasileiro em ciências de 2025 ficou acima do registrado em 2018, o único domínio em que isso ocorreu. Em leitura e matemática, o país também perdeu menos pontos do que a média da OCDE nesse intervalo, embora sem recuperar o patamar anterior.
Os três domínios contam histórias diferentes. Em ciências, área central desta edição, o Brasil apresentou a melhora mais consistente, tanto na comparação com 2022 quanto na recuperação pós-pandemia. Em leitura, o país manteve posição relativamente estável, com perdas menores que a média internacional em um período de queda generalizada na compreensão leitora entre adolescentes de todo o mundo. Em matemática, o resultado de 2025 ficou entre os mais baixos da série histórica recente do Brasil, o que indica que, apesar do avanço estrutural desde 2006, a área segue como o principal ponto de atenção do sistema educacional brasileiro no curto prazo.
Levantamentos baseados nos microdados oficiais também mostram que a proporção de estudantes brasileiros que atingiu o nível básico de proficiência permanece baixa: cerca de 28% em matemática, 49% em leitura e 48% em ciências. Esses percentuais indicam que uma parcela relevante dos adolescentes do país ainda não domina, de forma consistente, as competências mínimas que o PISA considera necessárias para lidar com situações cotidianas nessas três áreas.
Um dado que chama atenção nesse cenário: entre os estudantes brasileiros em situação de desvantagem socioeconômica, 10% obtiveram desempenho científico entre os mais altos do país, sendo classificados como academicamente resilientes. Ou seja, mesmo em contextos difíceis, existe um grupo de adolescentes que consegue aprender bem, o que sugere que fatores para além da renda familiar, como o clima escolar e o engajamento do estudante, também pesam no resultado final.
Além das provas de desempenho, o PISA aplica questionários que investigam o contexto de aprendizagem dos estudantes, e essa parte do relatório trouxe algumas das informações mais relevantes para famílias.
A proporção de adolescentes brasileiros que estudam em escolas com restrição ao uso de celular saltou de 37%, em 2022, para 81%, em 2025, um efeito da política de banimento do aparelho em sala de aula adotada no país a partir de janeiro de 2025. Na média da OCDE, esse percentual passou de 34% para 49% no mesmo período. Segundo a OCDE, estudantes de escolas que proíbem o celular têm cerca de 13% menos chances de relatar distração digital durante as aulas, na média dos países avaliados.
As faltas escolares também apareceram como um ponto de atenção: 55% dos estudantes brasileiros disseram ter faltado ao menos um dia nas duas semanas anteriores à aplicação da prova, contra 22% na média da OCDE, uma diferença expressiva que aponta para desafios de frequência e engajamento escolar no país.
Pela primeira vez, o PISA também perguntou aos adolescentes sobre o uso de chatbots de inteligência artificial nos estudos. No Brasil, 48% dos estudantes afirmaram usar ferramentas como o ChatGPT ao menos uma vez por semana para atividades escolares, ligeiramente acima da média da OCDE, de 46%. O uso mais comum entre os brasileiros é a pesquisa inicial sobre temas desconhecidos (40%, ante 31% na OCDE), seguida do resumo de textos (31%, próximo aos 30% da média internacional). Apenas 11% dos estudantes brasileiros disseram usar a tecnologia raramente ou nunca.
Um achado do próprio relatório merece destaque para famílias que discutem o uso de IA em casa: estudantes que recorrem a chatbots diariamente para escrever textos escolares tiveram desempenho médio inferior em ciências (481 pontos) ao de estudantes que quase não usam essas ferramentas (509 pontos). A OCDE é clara ao afirmar que esse dado mostra associação, não relação de causa e efeito: o desenho da pesquisa não permite saber se o estudante já apresentava dificuldade antes de recorrer à IA com frequência, ou se o uso intenso contribuiu para o resultado mais baixo.
Pela primeira vez, o PISA também mediu a Resolução de Problemas por meio de Ferramentas Computacionais, domínio ligado à chamada Aprendizagem no Mundo Digital. Na escala criada para essa comparação, com média de 500 pontos entre os países participantes, o Brasil obteve 406 pontos, à frente do Paraguai (352) e atrás da Coreia do Sul, que liderou com 538 pontos.
Reunidos, os números do PISA 2025 mostram um sistema educacional brasileiro em movimento, mas em ritmos diferentes conforme a área e o período observado. Existe avanço estrutural de longo prazo, evidenciado pela posição do país entre os que mais evoluíram desde 2006. Existe também uma estagnação recente, visível na comparação com 2022, e uma fragilidade específica em matemática, que segue como o ponto mais baixo entre as três áreas.
O relatório também indica que fatores para além da sala de aula, como a valorização que o estudante atribui à escola, se relacionam com o desempenho. No Brasil, adolescentes que não consideram a escola uma perda de tempo tiveram, em média, 35 pontos a mais em ciências do que os demais, uma diferença até maior que a observada na média da OCDE, de 27 pontos. Some-se a isso o dado de que 72% dos estudantes brasileiros se declararam curiosos sobre diversos assuntos, e 59% disseram se esforçar mais diante de desafios, sinais de disposição para aprender que nem sempre se traduzem, ainda, em desempenho consolidado nas provas.
É importante que famílias leiam esses números com o mesmo cuidado que a própria OCDE recomenda. O PISA mostra associações, como a que existe entre engajamento escolar e resultado em ciências, ou entre uso intenso de chatbots e desempenho mais baixo, mas essas associações não comprovam causa e efeito. Um adolescente que já enfrenta dificuldade de aprendizagem pode recorrer mais à inteligência artificial por precisar de apoio extra, e não o contrário.
O exame também não avalia toda a experiência escolar do estudante. Ele não mede, por exemplo, desenvolvimento socioemocional, criatividade, habilidades artísticas ou esportivas, nem substitui avaliações nacionais como o Saeb, que acompanha a rede brasileira com base na Base Nacional Comum Curricular e devolve resultado por escola. O PISA usa uma matriz internacional e serve para comparar sistemas educacionais entre países, não para avaliar escolas ou redes individualmente. Nenhuma instituição de ensino recebe uma nota própria do PISA.
Por fim, uma pequena variação entre um ciclo e outro, como a registrada pelo Brasil entre 2022 e 2025, pode estar dentro da margem de erro estatística da avaliação, o que significa que não há evidência suficiente, com esses dados isoladamente, para afirmar que o sistema educacional piorou ou melhorou de forma significativa nesse intervalo específico.
Para pais e responsáveis, o PISA 2025 funciona menos como um veredito e mais como um mapa de prioridades. Ele confirma que matemática segue sendo a área que mais exige atenção em casa e na escola, e que o hábito de leitura, mesmo diante da concorrência das telas, continua sendo um fator associado a melhores resultados em todas as disciplinas.
O relatório também traz um convite direto à conversa em família sobre tecnologia. O uso de inteligência artificial já é rotina para quase metade dos adolescentes brasileiros, e o dado sobre desempenho mais baixo entre usuários diários de chatbots para escrita reforça algo que educadores já vêm discutindo: a forma como o adolescente usa a ferramenta, seja como apoio pontual à pesquisa, seja como substituta do próprio raciocínio, parece importar tanto quanto a frequência de uso.
Além disso, o dado sobre faltas escolares, com mais da metade dos estudantes brasileiros relatando ausência recente, é um convite a olhar para a frequência às aulas como parte ativa do acompanhamento familiar, e não apenas como uma questão administrativa da escola.
O PISA não foi desenhado para medir se um estudante decorou fórmulas ou datas, mas se ele consegue aplicar o que aprendeu a situações novas, exatamente o tipo de habilidade associada a pensamento crítico e autonomia intelectual. Nesse sentido, os resultados sobre ciências e sobre resolução de problemas com ferramentas computacionais funcionam como um retrato de como os adolescentes brasileiros lidam com desafios que exigem raciocínio, e não apenas repetição.
O crescimento do uso de inteligência artificial nos estudos, somado ao indício de que o uso intensivo e pouco reflexivo dessas ferramentas pode estar associado a desempenho mais baixo, coloca um desafio novo para a formação da autonomia intelectual dos adolescentes. A tecnologia pode ampliar o acesso à informação e apoiar a pesquisa, mas a avaliação sugere que ela não substitui o exercício de pensar, escrever e resolver problemas pelo próprio esforço, algo que caberá a escolas e famílias ajudar a equilibrar nos próximos anos.
A pergunta que abre esta reportagem, sobre o que os resultados do PISA 2025 revelam a respeito da educação oferecida aos adolescentes brasileiros, não tem uma resposta única, e talvez essa seja a conclusão mais honesta possível. Os dados mostram um país que avançou de forma consistente em duas décadas, que ainda está distante da média dos países mais desenvolvidos, que melhorou em ciências, estagnou em leitura e segue com fragilidade em matemática, e cujos adolescentes já incorporaram a inteligência artificial à rotina de estudos, com efeitos que a própria OCDE reconhece não compreender totalmente ainda.
Para as famílias, o valor do PISA 2025 está menos em uma nota final e mais nesse conjunto de sinais: onde investir atenção, quais hábitos acompanhar em casa, e que perguntas seguir fazendo à escola e ao próprio adolescente sobre como ele está, de fato, aprendendo a pensar.