Como uma universidade sul-coreana está misturando IA a todos os cursos, da engenharia ao direito

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Projeto AX-GACHON cria disciplinas híbridas e professores dedicados à IA em cada área, do direito às artes, e reacende uma pergunta para famílias brasileiras: quais habilidades precisam ser construídas antes da faculdade.

A Universidade Gachon, na Coreia do Sul, começou a colocar em prática, no início de setembro, um plano para reorganizar toda a sua estrutura acadêmica em torno da inteligência artificial. Batizado de AX-GACHON, o programa não cria um curso de IA para substituir os demais. Ele insere conhecimentos e ferramentas de IA dentro de cursos que já existem, como engenharia, ciências, humanidades, ciências sociais, direito e artes, mantendo a identidade de cada formação.

A universidade apresentou o plano em uma sessão informativa realizada em 2 de setembro, no campus, reunindo os detalhes do que chama de sistema educacional AX-GACHON. A instituição está colocando em prática uma reformulação que conecta o ensino de todas as faculdades em torno da IA, sem restringir a tecnologia à formação de um único departamento, transformando-se em uma “universidade nativa em IA” que combina engenharia, humanidades, ciências sociais e artes.

O que muda na prática

O centro do projeto são as disciplinas chamadas “AX Bridge”, que funcionam como ponte entre a área de formação do estudante e aplicações de IA relacionadas a ela. Cada faculdade vai abrir essas disciplinas conectando seu currículo à IA, e cada departamento vai contar com um “professor AX”, responsável por conduzir a transformação da IA dentro daquela área específica. A ideia é que um estudante de direito, por exemplo, não aprenda a programar como um engenheiro, mas entenda onde e como sistemas de IA já afetam contratos, provas judiciais ou análise de jurisprudência, com um professor da própria área acompanhando essa integração.

Além das disciplinas de ponte, a universidade planeja construir uma trilha de formação básica em IA que acompanhe o estudante da matrícula até a formatura, incluindo infraestrutura de prática. Isso significa que aulas introdutórias sobre uso e limites da IA deixam de ser exclusividade de cursos técnicos e passam a fazer parte da experiência de qualquer aluno, independentemente da área escolhida.

Um núcleo técnico específico, ao lado da integração geral

O AX-GACHON não abre mão de formar especialistas profundos em IA. A universidade também pretende criar, em 2027, um departamento de Sistemas de Inteligência Artificial, com disciplinas em computação e sistemas de IA, infraestrutura de nuvem e dados, programação de GPU e NPU, interfaces cérebro-computador aplicadas à IA, computação quântica combinada com IA e segurança em IA, com um programa que une graduação e pós-graduação e conta com bolsas próprias.

Essa combinação, formação especializada de um lado e integração ampla do outro, resume a lógica do projeto: nem todo estudante vira cientista de dados, mas todo estudante convive com ferramentas de IA aplicadas à própria área.

O responsável pelo programa na universidade, Lee Won-jun, definiu a prioridade do projeto durante a apresentação de setembro. Segundo ele, mais importante do que seguir modismos de curto prazo em tecnologia de IA é fortalecer a capacidade de infraestrutura básica, como computação e sistemas de IA, e ele chamou essa orientação de “Back to the Basics”, voltar ao fundamento de cada área de formação como o diferencial competitivo da instituição. A frase sinaliza uma escolha editorial do próprio projeto: a universidade não está apostando em acompanhar cada nova ferramenta que surge, mas em consolidar competências estruturais que sobrevivam a essas mudanças.

O programa também prevê projetos com empresas dentro da grade curricular regular e ampliação de intercâmbios e pesquisas no exterior. A equipe responsável pelo projeto já enviou estudantes de graduação ao Vale do Silício em julho e planeja ampliar os países e regiões envolvidos.

Um projeto que não nasceu do zero

A transformação atual tem uma origem anterior, dentro da própria universidade. Em dezembro de 2023, a Gachon já havia anunciado a criação da primeira Faculdade de Humanidades voltada à IA da Coreia do Sul, convertendo sua faculdade de humanidades existente e reformulando os programas dos departamentos para incorporar IA a partir de 2024. Nesse modelo, um terço do currículo da faculdade de humanidades passou a ser ocupado por disciplinas de IA e de integração, mantendo os créditos da língua ou área principal escolhida pelo aluno e acrescentando disciplinas específicas sobre uso de IA aplicada àquele campo, como cursos que cruzam clássicos da literatura com humanidades digitais. O AX-GACHON estende essa lógica, testada primeiro nas humanidades, para toda a universidade.

Por que isso está acontecendo agora

O projeto não é uma iniciativa isolada da Gachon. Ele integra um programa do governo sul-coreano voltado a universidades. O programa de Universidade Centrada em IA é uma iniciativa do Ministério da Ciência e TIC voltada a formar especialistas em IA e talentos de transformação por IA, dentro do esforço da Coreia do Sul para se tornar uma das três maiores potências mundiais em IA. Das dez universidades participantes do programa neste ano, sete foram selecionadas: Gachon, Korea University, Sogang, Sungkyunkwan, Soonchunhyang, Soongsil e Yonsei. A Gachon vai receber até 24 bilhões de wones, cerca de 17,5 milhões de dólares, ao longo de oito anos até 2033, com cerca de 3 bilhões de wones repassados anualmente, e a universidade planeja contratar 150 professores nas áreas de IA e de transformação por IA.

Ou seja, o que a Gachon está fazendo faz parte de uma política nacional coreana de reorganizar o ensino superior em torno da IA, com financiamento público de longo prazo e metas explícitas de formação de mão de obra.

E o Brasil?

Não foi identificado, até o fechamento desta matéria, um projeto brasileiro equivalente ao AX-GACHON, ou seja, uma reformulação que integre IA a todos os cursos de uma universidade ao mesmo tempo, mantendo a identidade de cada formação. O movimento brasileiro mais visível segue outro caminho: a criação de cursos de graduação específicos e independentes em Inteligência Artificial.

A Universidade Federal de Goiás abriu o primeiro bacharelado em IA do país e, no Sisu 2026, o curso teve a segunda maior nota de corte entre todas as graduações do Brasil. A Universidade de Brasília aprovou seu próprio bacharelado em IA com entrada em 2026, construído por um consórcio entre matemática, estatística, ciência da computação e engenharia. Univesp, UFC, UFSJ e universidades privadas como a Unicap também lançaram ou anunciaram bacharelados dedicados à área para o mesmo ano.

A diferença de estratégia é relevante para quem acompanha o setor: enquanto a Coreia do Sul está tentando levar a IA para dentro de cursos já existentes, do direito às artes, o Brasil está, neste momento, concentrado em multiplicar cursos novos e específicos de IA. São respostas diferentes para a mesma pressão, e nenhuma das duas ainda tem resultado consolidado o suficiente para apontar qual funciona melhor.

A pergunta que sobra para quem tem filhos ainda na educação básica

Se universidades como a Gachon já estão redesenhando o que significa cursar direito, artes ou ciências sociais em um mundo com IA integrada, uma pergunta legítima para famílias brasileiras é qual formação, antes mesmo da faculdade, prepara uma criança ou adolescente para esse cenário.

Não existe hoje evidência científica robusta que aponte uma lista fechada de “habilidades do futuro” garantidas contra qualquer mudança tecnológica. O que existe são indícios, discutidos por educadores e pesquisadores de desenvolvimento infantil, de que algumas capacidades tendem a permanecer relevantes independentemente de qual ferramenta de IA estiver em uso em determinado momento: a habilidade de formular boas perguntas, de avaliar criticamente uma resposta pronta em vez de aceitá-la automaticamente, de sustentar um raciocínio longo sem depender de atalho, e de transitar entre áreas de conhecimento diferentes, já que a integração entre humanas e exatas é justamente o que projetos como o AX-GACHON tentam simular dentro da universidade.

Isso não significa que expor uma criança a ferramentas de IA cedo seja, por si só, uma vantagem garantida, nem que famílias devam correr para inscrever os filhos em cursos de programação como resposta automática. A evidência sobre os efeitos do uso precoce e intenso de IA generativa no desenvolvimento cognitivo infantil ainda é preliminar, e pesquisadores têm alertado para riscos como a dependência de respostas prontas em tarefas que exigiriam esforço de elaboração própria, o que pode enfraquecer justamente a capacidade de raciocínio que se quer desenvolver.

O que o exemplo coreano deixa mais claro é outra coisa: a fronteira entre “curso de tecnologia” e “curso de humanas” está ficando menos rígida nas universidades, e essa mudança tende a chegar, com atraso, aos processos seletivos e às expectativas sobre o que um jovem deveria saber antes de entrar na faculdade. Acompanhar como universidades no Brasil e no exterior estão respondendo a essa mudança pode ser mais útil para uma família do que tentar antecipar, sozinha, qual habilidade específica valerá mais em dez anos.

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