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Foto: Reprodução/Instagram
O caso de Samara Pink acendeu um holofote sobre superdotação que a maioria das famílias brasileiras nunca vai poder ligar. Entre 4 e 10 milhões de pessoas têm altas habilidades no Brasil. Menos de 60 mil foram identificadas.
Quando Samara Pink, sócia de Virginia Fonseca, contou nas redes sociais que seu filho Miguel, de quatro anos, havia sido diagnosticado com superdotação, a reação foi instantânea. Parte do público ficou curiosa. Outra parte confusa: o menino aparecia em vídeos usando protetores auriculares na Disney, e muita gente não entendeu o que isso tinha a ver com inteligência acima da média. Samara explicou que a hipersensibilidade sensorial é uma característica comum em crianças com altas habilidades, que o cérebro superdotado processa estímulos com uma intensidade diferente. O esclarecimento foi necessário, mas o episódio revelou muito mais do que uma dúvida sobre protetores de ouvido.
Revelou o quanto o Brasil ainda sabe pouco sobre superdotação. E o quanto esse desconhecimento custa mais caro para quem já tem menos.
A superdotação vai além de tirar nota dez em matemática. Crianças com altas habilidades processam informações de forma muito mais rápida do que seus pares, apresentam vocabulário precoce e elaborado, memória impressionante e uma curiosidade que muitas vezes desconcerta adultos. Mas esse perfil vem acompanhado de características que raramente alguém associa a “ser inteligente”: hipersensibilidade emocional e sensorial, intensidade nos relacionamentos, tédio crônico em ambientes que não oferecem estimulação suficiente, e uma dificuldade real de se encaixar em rotinas pensadas para o aluno médio.
Estimativas amplamente utilizadas na literatura especializada apontam que cerca de 5% da população apresenta altas habilidades ou superdotação. No Brasil, isso representaria entre 10 e 10,7 milhões de pessoas. O Censo Escolar de 2025, no entanto, registrou apenas 56 mil estudantes identificados com essa condição. Em 2022, eram 26 mil. Em 2023, saltou para 38 mil. Os números crescem, mas continuam absurdamente distantes da realidade.
Esse abismo tem nome: subnotificação crônica. E tem causa estrutural.
Para uma família que suspeita que o filho tem altas habilidades, o caminho até o diagnóstico começa com uma avaliação neuropsicológica. O processo é conduzido por psicólogos especializados e inclui entrevistas, testes cognitivos padronizados como o WISC (Escala de Inteligência Wechsler para Crianças), avaliações comportamentais e escalas de observação.
O custo médio dessa avaliação no Brasil varia entre R$ 800 e R$ 2.500, dependendo da região, da experiência do profissional e da complexidade do caso. Em grandes centros urbanos, com alta demanda e poucos especialistas, os valores tendem a ser maiores. Uma triagem inicial já pode custar mais de R$ 500 na rede privada.
Para situar: segundo o IBGE, a renda domiciliar per capita mediana no Brasil é de aproximadamente R$ 1.320. Uma avaliação neuropsicológica completa pode consumir meses de renda de uma família da classe trabalhadora. Para quem vive com salário mínimo, é simplesmente inviável.
A questão do custo é um dos principais fatores que determinam quem consegue ou não acessar uma avaliação especializada. Isso ajuda a explicar por que tantas crianças permanecem sem identificação formal, mesmo quando apresentam sinais claros de altas habilidades.
A discussão sobre o acesso desigual a diagnósticos de condições do neurodesenvolvimento, que ganhou força com o debate sobre TDAH e autismo nos últimos anos, se aplica de forma ainda mais invisível às altas habilidades. Enquanto o autismo e o TDAH ao menos carregam o peso social de “condição a ser tratada”, a superdotação ainda é vista por muita gente como um problema luxuoso. Como se identificar um potencial elevado fosse algo que só importa para quem já tem tudo resolvido.
Pesquisadores da área são categóricos em apontar que a superdotação ocorre em todas as classes sociais, todos os grupos étnicos, todos os gêneros. Ela não escolhe berço. Mas o diagnóstico, sim.
Uma revisão da literatura acadêmica sobre o tema sintetiza o problema com precisão: pais de grupos socioeconômicos desfavorecidos são menos propensos a conhecer os recursos disponíveis para crianças superdotadas e, muitas vezes, não conseguem arcar com os testes externos e avaliações, nem sabem que essas opções existem para uma segunda opinião. O resultado prático é que os programas voltados para superdotados em muitas escolas são desproporcionalmente frequentados por crianças brancas, e crianças superdotadas de grupos minorizados têm muito mais chance de ter suas habilidades intelectuais ignoradas e seus comportamentos classificados como distúrbios.
Uma criança negra, pobre, que se agita em sala de aula por falta de estímulo, que desafia professores, que demonstra um pensamento associativo que a turma não acompanha: essa criança raramente é encaminhada para uma avaliação de altas habilidades. Ela é encaminhada para o conselho tutelar. Ou medicada.
Existe uma questão menos discutida quando o assunto é neurodesenvolvimento: nem todos os diagnósticos ocupam o mesmo lugar no imaginário social.
Quando uma criança apresenta características fora do padrão esperado, a sociedade tende a organizar essas diferenças em categorias que considera mais ou menos aceitáveis. Algumas despertam admiração. Outras despertam preocupação. Algumas são associadas a potencial. Outras, a limitações.
O autismo carrega uma história particularmente complexa. Durante décadas, foi retratado quase exclusivamente a partir de déficits, dificuldades e incapacidade. Embora a compreensão sobre o espectro tenha avançado significativamente, o estigma permanece presente. Muitas famílias ainda enfrentam preconceito, julgamentos e expectativas reduzidas sobre o futuro de seus filhos.
Nesse contexto, não é raro que qualquer menção à superdotação provoque suspeita. Surge a ideia de que a inteligência elevada estaria sendo usada para encobrir outra condição, como se um diagnóstico anulasse o outro ou como se determinadas características pertencessem exclusivamente a um único perfil de desenvolvimento.
A realidade é menos simples. O cérebro humano não se organiza em categorias tão rígidas. Superdotação pode existir sem autismo. O autismo pode existir sem superdotação. E as duas condições podem coexistir na mesma pessoa. Nenhuma dessas possibilidades é mais legítima do que a outra.
Talvez a questão mais importante não seja decidir qual rótulo parece mais adequado aos olhos do público. Talvez seja compreender por que determinados diagnósticos ainda são vistos como motivo de orgulho, enquanto outros continuam sendo tratados como algo que precisaria ser negado, escondido ou explicado.
Enquanto essa lógica persistir, o debate sobre neurodivergência continuará falando mais sobre os preconceitos da sociedade do que sobre as crianças que pretende compreender.
Na prática, a identificação de alunos com altas habilidades costuma favorecer um perfil bastante específico: crianças com bom desempenho acadêmico, comportamento organizado e facilidade para atender às expectativas da escola. Como resultado, muitos professores reconhecem com mais facilidade esses alunos, enquanto outros perfis podem passar despercebidos.
O problema é que boa parte das crianças com altas habilidades não cabe nesse perfil. A criatividade divergente, a intensidade emocional, o tédio que se manifesta como apatia ou como insubordinação, a recusa em fazer tarefas repetitivas, a dificuldade de seguir regras que parecem arbitrárias: tudo isso pode parecer, aos olhos de um professor sem formação específica, um problema de comportamento. Ou TDAH. Ou simplesmente uma criança difícil.
O docente médio brasileiro não está preparado para reconhecer esses sinais. Não por má-fé, mas por falta de formação. E essa lacuna tem um custo humano enorme.
Estudos sobre o tema apontam que a falta de diagnóstico e de atendimento adequado pode levar crianças com altas habilidades a desenvolver ansiedade, depressão e baixa autoestima. O alto intelecto pode mascarar outras condições, e as próprias crianças podem usar sua inteligência para “camuflar” dificuldades sociais, aprendendo a imitar comportamentos esperados. Esse processo gera um desgaste emocional significativo e, a longo prazo, esgotamento.
A questão da dupla excepcionalidade torna tudo ainda mais complexo: é possível ter altas habilidades e TDAH ao mesmo tempo. Ou altas habilidades e autismo. Essas combinações são mais frequentes do que se imagina, e o diagnóstico diferencial exige profissionais com formação específica nas três áreas.
A revelação de Samara Pink trouxe à tona dúvidas que aparecem repetidamente sempre que altas habilidades entram no debate público. A associação entre hipersensibilidade sensorial e autismo é uma delas. Para muitas pessoas, uma criança que demonstra desconforto intenso com barulhos, luzes ou determinados estímulos estaria necessariamente dentro do espectro autista. A realidade é mais complexa.
A hipersensibilidade sensorial não pertence exclusivamente ao espectro autista. Ela também aparece com frequência em pessoas com superdotação, especialmente naquelas que apresentam o que pesquisadores chamam de intensidades ou sobre-excitabilidades. Sons, luzes, cheiros, texturas e emoções podem ser percebidos com mais intensidade. O resultado prático é uma criança que se incomoda mais com determinados estímulos e precisa de estratégias para lidar com eles.
Isso não significa que superdotação e autismo sejam a mesma coisa. Tampouco significa que sejam condições incompatíveis. Em muitos casos, elas coexistem. A chamada dupla excepcionalidade descreve justamente pessoas que apresentam altas habilidades ao mesmo tempo que condições como autismo, TDAH ou transtornos de aprendizagem. Para famílias e profissionais, o desafio está em identificar com precisão o que pertence a cada quadro.
Outra dúvida recorrente envolve a idade. Existe a percepção de que altas habilidades só poderiam ser identificadas após determinado marco do desenvolvimento infantil. Embora avaliações cognitivas mais robustas costumem ganhar precisão à medida que a criança cresce, sinais de desenvolvimento muito acima da média podem ser observados ainda na primeira infância. Linguagem extremamente precoce, memória incomum, aprendizagem acelerada, curiosidade intensa e interesses avançados para a idade frequentemente aparecem antes da entrada no ensino fundamental. O que muda não é a existência dos sinais, mas a forma e a profundidade da avaliação realizada.
Existe ainda um aspecto frequentemente ignorado nesses debates: ninguém é capaz de diagnosticar uma criança por vídeos de poucos segundos publicados nas redes sociais. Nem autismo. Nem TDAH. Nem altas habilidades. Nem qualquer combinação entre eles.
O que a internet vê é um recorte cuidadosamente editado da vida de uma criança. O que uma avaliação especializada analisa são horas de entrevistas, histórico de desenvolvimento, observações sistemáticas, testes padronizados e informações coletadas em diferentes contextos. A distância entre uma coisa e outra é enorme.
Talvez o aspecto mais revelador da repercussão não seja o diagnóstico de Miguel, que pertence à sua família e aos profissionais que o acompanham. Talvez seja o fato de que uma simples menção à superdotação ainda provoque tanta desconfiança. Em um país que identificou menos de 60 mil estudantes com altas habilidades entre milhões de pessoas potencialmente elegíveis, a dificuldade não está apenas em reconhecer quem tem o diagnóstico. Está em admitir que elas podem existir muito além dos estereótipos que a sociedade aprendeu a reconhecer.
Em 2005, o Ministério da Educação criou os Núcleos de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação (NAAH/S), um em cada estado brasileiro. A proposta era identificar, atender e estimular o potencial de estudantes com essa condição matriculados na rede pública. Em teoria, uma alternativa ao diagnóstico privado.
Na prática, a cobertura é heterogênea e frequentemente insuficiente para a demanda real. Santa Catarina é um dos estados com estrutura mais consolidada: em 2025, cerca de 900 alunos eram atendidos por 38 polos regionais. É um número expressivo para um estado de 7 milhões de habitantes, mas que ainda fica muito aquém da estimativa de 5% da população que teria altas habilidades.
Em boa parte do país, os NAAH/S existem no papel, mas operam com recursos limitados, profissionais sobrecarregados e sem capacidade de dar conta de uma demanda que, na prática, mal foi mapeada.
Em maio de 2026, o Brasil aprovou uma política nacional para estudantes com altas habilidades e superdotação, projeto de autoria da deputada Soraya Santos. A lei prevê a normatização de procedimentos e a criação de um cadastro nacional gerido pelo MEC. O passo é importante. Mas a implementação dependerá de algo que historicamente falta nas políticas educacionais brasileiras: recursos, formação continuada e vontade política para que a norma saia do papel.
A triagem prevista pela nova lei será pedagógica e indicativa, feita por professores a partir de observações em sala. Não valerá como laudo. Não substituirá a avaliação neuropsicológica formal. Poderá democratizar o acesso ao processo de identificação, mas também abre margem para que o viés do professor determine quem é ou não encaminhado.
Samara Pink pode pagar por uma avaliação neuropsicológica completa para o filho. Pode adaptar a rotina, buscar escolas que entendam as particularidades de uma criança com altas habilidades, contratar profissionais de apoio, viajar com protetores auriculares na bagagem. Esse acesso não é trivial. É o produto direto de uma posição econômica que a maioria das famílias brasileiras não tem.
O filho de uma faxineira que apresenta os mesmos sinais que Miguel dificilmente será encaminhado para uma avaliação de altas habilidades. Vai crescer sendo chamado de inquieto, difícil, desatento. Vai se adaptar da única maneira possível: apagando o que o torna diferente.
O Brasil estima ter mais de 10 milhões de pessoas superdotadas. Identificou menos de 60 mil. Nessa conta, o que se perde não é só o desenvolvimento individual de crianças com potencial não reconhecido. O que se perde são décadas de contribuição que nunca aconteceram, talentos que nunca floresceram, porque ninguém pôde pagar para descobrir que eles existiam.
Inteligência não tem classe social. O diagnóstico, até hoje, tem.
Fontes consultadas: Censo Escolar 2025 (MEC/INEP); Agência Brasil; The Conversation Brasil; Folha Vitória; Scielo Brasil; Instituto Autismos; FCEE Portal da Superdotação; Mensa Brasil; pesquisa “Altas Habilidades/Superdotação e Interseccionalidade” (Revista Diálogos e Perspectivas em Educação Especial); livro “Misdiagnosis and Dual Diagnoses of Gifted Children and Adults” (Webb et al.); IBDFAM; publicações e materiais de referência do Conselho Brasileiro para Superdotação (ConBraSD).
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