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São 22h. Seu filho está na cama há quase uma hora. A rotina foi cumprida, a luz está apagada e o quarto está silencioso. Ainda assim, ele continua acordado.
Talvez esteja pensando em uma pergunta que surgiu durante o dia. Talvez esteja reconstruindo uma conversa, imaginando uma história, planejando alguma coisa para amanhã ou tentando entender um assunto que despertou sua curiosidade.
Para algumas famílias de crianças com altas habilidades, esse cenário é familiar.
A relação entre altas habilidades e sono, porém, exige cuidado. Estudos recentes encontraram alterações no sono em alguns grupos de crianças com altas habilidades, enquanto outras pesquisas não encontraram diferenças significativas em relação a crianças sem altas habilidades. Uma pesquisa publicada em 2024, por exemplo, encontrou menos problemas de sono relatados pelos próprios participantes entre crianças com níveis mais altos de inteligência, além de parâmetros objetivos semelhantes entre os grupos.
A pergunta mais útil para os pais, portanto, não é simplesmente se crianças superdotadas dormem pior.
A pergunta é: quando uma criança com altas habilidades tem dificuldade para dormir, quais fatores podem estar envolvidos e quais estratégias têm melhor respaldo?
Ainda existem poucos estudos específicos sobre o sono de crianças com altas habilidades.
Um estudo publicado no Journal of Clinical Sleep Medicine acompanhou 62 crianças com altas habilidades e 62 crianças com desenvolvimento típico, utilizando actigrafia para observar seus padrões de sono. O grupo com altas habilidades apresentou menor eficiência do sono, mais tempo acordado depois de adormecer e maior variabilidade de uma noite para outra. Os autores destacaram a necessidade de pesquisas adicionais para compreender os fatores associados a esses padrões.
Outro estudo, publicado no Journal of Sleep Research, avaliou o sono de 19 crianças com altas habilidades e 17 crianças com desenvolvimento típico por meio de polissonografia. Foram observadas diferenças em alguns estágios do sono, incluindo maior proporção de N1 e menor proporção de N3 entre as crianças com altas habilidades. Os próprios pesquisadores ressaltaram que os resultados são iniciais e que ainda são necessários estudos para esclarecer as relações entre sono, comportamento e altas habilidades.
Uma pesquisa publicada em 2024 acrescentou uma informação relevante. O estudo avaliou 80 crianças de 6 a 11 anos e dividiu os participantes de acordo com níveis de QI. As crianças classificadas como altamente superdotadas apresentaram menos problemas de sono relatados e menos sonolência diurna. Os parâmetros objetivos registrados por actigrafia não apresentaram diferenças significativas entre os grupos.
Os resultados apontam para um cenário heterogêneo. Altas habilidades podem aparecer junto a dificuldades de sono em algumas crianças, enquanto outras apresentam padrões de sono semelhantes ou até melhores em determinados indicadores.
Por isso, uma criança que demora para dormir precisa ser observada individualmente.
Uma criança com grande interesse intelectual pode chegar ao horário de dormir ainda envolvida com um assunto que descobriu durante o dia.
Isso pode acontecer com qualquer criança. Em algumas crianças com altas habilidades, interesses intensos, grande curiosidade e facilidade para estabelecer associações entre ideias podem contribuir para manter a atividade mental elevada no momento em que a rotina deveria desacelerar.
Esse mecanismo precisa ser tratado como uma possibilidade, não como uma característica obrigatória da superdotação.
Uma criança pode estar acordada porque quer continuar pensando sobre um assunto interessante. Outra pode estar preocupada com uma situação da escola. Outra pode estar enfrentando ansiedade. Outra pode ter horários irregulares, exposição a telas à noite ou algum problema de sono que merece investigação.
A origem da dificuldade pode estar em mais de um fator.
O sono infantil sofre influência do estado emocional.
Preocupações com a escola, conflitos com colegas, cobrança por desempenho, medo de errar e acontecimentos do dia podem manter a criança em estado de alerta.
O perfeccionismo merece atenção especial quando a criança passa muito tempo revisando mentalmente situações, tentando encontrar erros ou imaginando como poderia ter agido de outra maneira.
A presença de ansiedade ou dificuldades emocionais também pode interferir no sono. Uma revisão sistemática sobre altas habilidades e problemas socioemocionais encontrou associações em parte dos estudos analisados, embora os autores tenham concluído que a literatura ainda não permite estabelecer uma relação única entre superdotação e problemas emocionais ou comportamentais.
Por isso, a pergunta útil para os pais é:
O que acontece nos minutos que antecedem o sono?
A resposta pode revelar mais do que o diagnóstico ou a classificação intelectual da criança.
Algumas crianças são especialmente sensíveis a sons, luz, temperatura, tecidos ou outros estímulos ambientais.
Quando isso acontece, o quarto precisa ser avaliado como parte da rotina de sono.
Um aparelho emitindo ruído irregular, uma luz entrando pela janela, uma temperatura desconfortável ou um tecido que incomoda a pele podem dificultar o relaxamento.
Esse tipo de sensibilidade pode aparecer em diferentes perfis de crianças. Não deve ser atribuído automaticamente às altas habilidades.
A necessidade de sono varia com a idade.
A American Academy of Sleep Medicine recomenda, em média:
3 a 5 anos: 10 a 13 horas por dia, incluindo cochilos.
6 a 12 anos: 9 a 12 horas por dia.
13 a 18 anos: 8 a 10 horas por dia.
Essas recomendações consideram o sono regular ao longo do tempo. Quantidade, regularidade e qualidade também precisam ser observadas.
Uma criança que dorme menos do que precisa pode apresentar alterações de atenção, comportamento, aprendizagem e regulação emocional.
Quando a dificuldade de sono é recorrente, as primeiras medidas devem estar relacionadas à rotina e ao ambiente.
A American Academy of Sleep Medicine recomenda intervenções comportamentais como primeira opção para crianças saudáveis que apresentam resistência para dormir ou despertares durante a noite.
Tente manter horários relativamente consistentes para dormir e acordar.
O corpo funciona melhor quando recebe sinais previsíveis sobre o período de sono e vigília.
A rotina pode incluir banho, higiene, leitura, conversa breve e iluminação mais baixa.
A repetição ajuda a transformar essas atividades em sinais associados ao horário de dormir.
A Academia Americana de Pediatria recomenda retirar telas pelo menos uma hora antes de dormir e manter dispositivos fora do quarto da criança durante a noite.
Para uma criança que costuma ficar muito envolvida com determinados assuntos, esse cuidado ganha importância adicional. Um vídeo, jogo, conversa ou pesquisa pode prolongar a atividade mental justamente no momento em que o corpo precisa desacelerar.
Algumas crianças precisam falar sobre o que está passando pela cabeça antes de conseguir relaxar.
Uma conversa breve pode ajudar.
Outra possibilidade é utilizar papel e lápis para registrar preocupações, tarefas ou ideias que surgiram durante o dia.
Um estudo experimental realizado com adultos encontrou redução do tempo necessário para adormecer quando os participantes escreveram uma lista de tarefas pendentes antes de dormir. Esse resultado não permite afirmar que a mesma intervenção produzirá o mesmo efeito em crianças com altas habilidades, mas oferece uma estratégia simples que pode ser testada dentro de uma rotina adequada.
Uma criança que passou duas horas estudando, jogando, pesquisando ou conversando sobre um assunto complexo pode precisar de tempo para mudar de ritmo.
A última parte da noite pode ser reservada para atividades previsíveis e pouco estimulantes.
Leitura em papel, banho, música tranquila, conversa e atividades de baixa intensidade são opções possíveis.
Verifique:
A Academia Americana de Pediatria recomenda um ambiente de sono seguro e favorável ao descanso, com luz reduzida antes de dormir e telas fora do quarto.
A dificuldade ocasional para dormir faz parte da infância.
A situação merece investigação quando o problema se torna frequente ou começa a interferir no funcionamento durante o dia.
Alguns sinais merecem atenção:
Problemas como apneia do sono, alterações do ritmo circadiano e transtornos específicos do sono precisam de avaliação própria.
Quando as medidas comportamentais não resolvem a dificuldade, a American Academy of Sleep Medicine recomenda avaliação por especialista em sono, especialmente quando existem problemas médicos mais complexos.
Antes de concluir que a criança tem um problema específico, registre o padrão.
Durante sete dias, anote:
Horário de dormir:
Que horas foi para a cama?
Horário aproximado de adormecimento:
Quanto tempo levou?
Despertares:
Acordou durante a noite?
Horário de despertar:
Que horas acordou?
Sono durante o dia:
Houve cochilo?
Telas:
Até que horas utilizou dispositivos?
Atividade física:
Houve atividade durante o dia?
Estado emocional:
Havia alguma preocupação importante?
Atividade intelectual:
Passou muito tempo envolvido com algum assunto antes de dormir?
Esse registro pode revelar padrões que passam despercebidos quando cada noite é analisada isoladamente.
Uma criança com altas habilidades pode ter dificuldades para dormir. Uma criança com altas habilidades também pode apresentar sono adequado.
A literatura científica disponível ainda é pequena e apresenta resultados diferentes entre estudos. Uma pesquisa encontrou menor eficiência do sono e maior variabilidade em crianças com altas habilidades. Outra encontrou diferenças em estágios específicos do sono. Um estudo mais recente encontrou menos problemas de sono relatados entre crianças com níveis mais altos de inteligência.
Esses resultados indicam que não existe uma explicação única.
Quando uma criança passa horas acordada, vale observar o conjunto formado por rotina, ambiente, emoções, hábitos, desenvolvimento e possíveis condições associadas.
A primeira intervenção costuma estar na previsibilidade da rotina, na redução de estímulos antes de dormir e na qualidade do ambiente. Persistindo a dificuldade, a avaliação profissional ajuda a identificar a causa e escolher a estratégia adequada.
Para famílias de crianças muito curiosas, uma pergunta pode ser especialmente útil antes de apagar a luz:
“O que está passando pela sua cabeça agora?”
A resposta pode revelar se a criança precisa de alguns minutos para organizar uma ideia, registrar uma preocupação, concluir uma conversa ou simplesmente desacelerar.
Bastien, L. et al. Habitual sleep and intraindividual variability of sleep in gifted children: an actigraphy study. Journal of Clinical Sleep Medicine.
Bastien, L. et al. Association between sleep and problematic behaviours in gifted children: a polysomnographic study. Journal of Sleep Research.
Sun, J. et al. Sleep problems and duration in school-aged children at different levels of giftedness. Sleep Medicine, 2024.
American Academy of Sleep Medicine. Recomendações de duração do sono para crianças e adolescentes.
American Academy of Sleep Medicine. Recomendações para insônia e intervenções comportamentais em crianças.
American Academy of Pediatrics. Orientações sobre hábitos de sono e uso de telas.